"A primeira mulher que possuí foi sob a ponte do Sena, em pleno coração do meu Paris imaginário" (Walter Campos de Carvalho, A Lua Vem da Ásia)
Seguia a claridade que entrava pela greta da janela, sorrindo com as criaturas engraçadas que se formavam na parede, entregue aos pensamentos que a faziam voar. Diante da noção de que existem bilhões de pessoas no mundo, nada lhe dava mais prazer do que não se sentir solitária. Recebeu um pedido de casamento, daqueles inesperados de deixar a perna bamba e os olhos marejados. Disse um sim com a rapidez de todas as atitudes que definem para sempre o rumo da vida. Então apagou as tristezas como quem fecha uma cortina, despreocupada com tudo aquilo que fica no lado de fora. E durante aquela tarde nada a atingia, tinha dentro do peito uma grande euforia. Sequer lembrou do futuro aluguel ou cogitou pagar impostos, fazer mercado, dividir os gastos de uma vida real. Viu apenas o que era bom, divertido e mágico. Uma cama, ele e seus beijos, viagens tão distantes quanto se possa imaginar, o primeiro dia de escola da filha, domingos ensolarados dentro do quarto e um punhado de sonhos com gosto de possibilidade. Para dizer a verdade, nunca soube ao certo o que esperar do amor, e talvez nem precise. Dele não se pode ter respostas além do que se quer para si mesmo.