"Meu relato será fiel à realidade ou, em todo caso, à minha lembrança pessoal da realidade, o que dá no mesmo." (Jorge Luis Borges traduzido por Vanessa Barbara, Ulrica)
Demasiadas vezes ele tentou enxergar aquele algo que dizem ser o motivo pelo qual importa viver. A essa altura de esforços incessantes, já havia se arrependido de atitudes bastantes para embranquecer seus cabelos ou fazer cair os poucos que ainda restavam. Procurou em lugares afastados sem sair do lugar e nem ao menos contara aonde ia ou o porquê das saídas repentinas. Abandonou apenas um bilhete despretensioso num canto esquecido de si mesmo, daqueles que colam na porta da geladeira, escrito que de qualquer forma um dia porventura voltasse para resolver o que ficou pendente. Como se alguém fosse se preocupar, talvez aquele outro que conversa com ele durante o tempo em que fica sentado horas na cama diante do teto rachado. Nisto, por seu turno entediado de aguardar a solução, foi para a cozinha, abriu uma garrafa de cerveja, encheu uma caneca até a borda e seguiu para a sala estudar o que fazer em meio à uma embriaguez digna dos sábios. Bebeu um gole, três, desabou no sofá, virou a atenção para a porta do apartamento e vislumbrou que tão infinitos os caminhos quanto as respostas que se quer descobrir. Então decidiu gelar mais uma loura enquanto que desta vez resolvia se encarava ou não mais um grande desafio.